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lost in wonderland

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Efeitos secundários do tamoxifeno

Setembro 18, 2019

já sabemos que o tamoxifeno é a droga de eleição para a hormonoterapia, e que os benefícios superam os riscos.. mas tem uns efeitos secundários um bocado merdosos. li muuuuuuito sobre isto, e aprendi que não existem duas experiências iguais. o catálogo pode ser vasto, mas cada organismo reage de forma diferente. umas pessoas são mais poupadas, outras não têm tanta sorte. 

btw, tive que dividir este post em dois, porque estava a ficar monstruoso (e mesmo assim, saiu enorme 😑 ). neste falo sobre os convidados indesejados que passaram a fazer parte da minha vida, e no próximo, como lido com eles. então,

ondas de calor (afrontamentos)

não creio que sejam tão intensas como algumas mulheres as descrevem, e têm o seu q.b. de interessante, porque sempre fui friorenta, e agora ando sempre acalorada. nunca um inverno foi tão fácil de suportar. já o verão.. tem havido dias complicados, em que pareço um peixe fora de água a tentar respirar, farto-me de suar, e fico tão mole que quase que caio pró lado.

portantos, se me ouvirem a perguntar "tá calor aqui ou sou só eu?" ao mesmo tempo que entra um gajo todo bom na sala, não é assédio sexual, tou só a tentar perceber se tou a ter um afrontamento lol

suores nocturnos 

chega a ser ridículo.. a sério que estou à espera da noite em que me afogo no meu próprio suor. ainda por cima, é pior durante o inverno...PQP, é o efeito secundário que mais me incomoda. e não vamos falar das vezes que acordo com a gata a lamber-me o suor... blargh!!

agora também ando sempre com sede. ainda estou para perceber se isto está relacionado com o suar muito, ou é outra coisa. só sei que ando a beber praí o dobro (ou mais) da água que bebia antes. e depois, chego a ter que me levantar duas vezes por noite, para ir ao wc. bah! 

perturbações do sono

os meus sonos nunca foram muito atinados, mas desde que comecei a tomar a pílula avariada, a coisa descarrilou ainda mais. as minhas insónias têm insónias. na maior parte dos dias não consigo adormecer antes das cinco da manhã. mas quando pego no sono a sério, durmo que nem uma ursa, e não consigo acordar. por causa da inconsistência nas horas que durmo, às vezes tenho umas pancadas de sono malucas durante a tarde.

fadiga

nada de significativo, e atribuo mais às perturbações no sono que outra coisa qualquer. mas não há-de ser só isso, porque noto que tenho menos energia, e quando faço esforços físicos demoro mais tempo a recuperar.

retenção de líquidos

oh yeah
.. e eu que nunca soube o que era essa merda..

alterações de peso

não está provado que o tamoxifeno provoca aumento de peso, mas porque pode causar retenção de líquidos, a balança pode subir... bom, só sei que meti 2kg, e tou a ver-me grega para despachá-los.

problemas de memória e dificuldades de concentração

a minha memória nunca foi grande coisa, agora ainda está mais pobrezinha. poderá ser culpa das perturbações no sono. ou então, não..

a concentração, ao início andou um bocado abananada, mas depois voltou ao que era. 

manifestações cutâneas

sinto que tenho a pele mais sensível. banho agora, só com água morna (o que não é mau, poupo da conta do gás lol). noto que ganhei uma certa intolerância à exposição solar, sinto a pele queimar com mais facilidade.

de vez em quando, assim do nada, sou acometida dumas coceiras malucas, que até dou saltos.

mas nem tudo é mau. porque a pele ficou mais seca, está com melhor aspecto, menos oleosa e mais macia.

dores de cabeça

não sou muito dada a dores de cabeça, mas notei um aumento de frequência, daquelas dores tipo, que não-fode-nem-deixa-foder. tão ali a pulsar, mas não justificam mandar um analgésico pró bucho. tou bastante desconfiada que se devem à tensão muscular, que, guess what? é um dos sintomas da menopausa. os músculos do pescoço, costas e ombros ficam mais tensos e rígidos.

perturbações no sistema genito-urinário

a "sul" também notei algumas alterações que não achei grande piada.. mas é capaz de ser um bocado TMI.. 

perturbações gastrointestinais

uma das primeiras coisas que notei quando comecei a terapia, foi que a minha rica tripa, tão certinha que era, ficou toda desregulada.. 

praí aos seis meses de estar a tomar a droga, comecei a ter problemas digestivos. comecei por notar a digestão a ficar cada vez mais preguiçosa. eventualmente a coisa escalou, e à terceira paragem de digestão sem razão aparente (com direito a espectáculo de dança contemporânea no chão do wc, a achar que ia quinar-me ali, e a terminar com a cabeça enfiada na sanita) no espaço de um mês, desconfiei logo que só podia ser o raio do tamoxifeno. interrompi a toma, e fui a correr aos médicos, até porque alguns dos efeitos podem necessitar de supervisão médica. oncologia, cardiologia e gastrenterologia, aqui vou eu!!

o médico de cardio foi impecável, não pareceu incomodado eu ter-me "enganado" na especialidade. a cena é que, se mete quebras de tensão e desmaios, eu começo logo a pensar que é um problema cardiovascular e entro em pânico (a minha família é dada a problemas neste departamento). o médico explicou-me que os sintomas que tenho quando estou prestes a vomitar são de síncope vasovagal, que é a activação inapropriada do nervo vago, que induz uma queda na pressão arterial e desacelera o coração, provocando uma redução temporária no fluxo de sangue e oxigénio ao cérebro. nada simpático, eh!? 

portanto, desmaios e quebras de tensão não estão associados com o coração. menos mal. mas porque eu tinha feito radioterapia e estava a fazer hormonoterapia, o médico quis-me fazer um ecocardiograma com doppler para certificar-se que estava tudo nos conformes. e estava.

a médica de gastro impecável foi. montes de dicas sobre alimentos e alimentação, medicação para tomar em SOS, mas vamos também fazer uma endoscopia a ver se está tudo ok. ora faça favor, desde que me botem a dormir, podem revirar-me as entranhas que eu não quero saber. tudo ok. mas ia desmaiando quando a enfermeira estava a meter o cateter, e magoou-me. eu prás enfermeiras, na maior das calmas, já com a voz arrastada e a fechar os olhos "não se admirem se eu desmaiar", e elas em pânico a articular a cama, para ficar inclinada e forçar o sangue à cabeça. bom, ao menos desta vez estava deitada muhahaha mas não cheguei a desmaiar.

a médica de oncologia não precisou de me prescrever nada porque eu já tinha tomado conta do assunto. concordou com a medicação de SOS, e pediu-me que tentasse jantar mais cedo, e caminhar um bocadinho depois do jantar. parar o tamoxifeno é que não podia ser. oh well...

ao fim de uma semana de pausa, voltei ao tamoxifeno. e sim, o estômago volta e meia arma-se em parvo, mas agora estou sempre prevenida. e se vomitar, vomito. caguei. há coisas piores.

há uma série de efeitos que felizmente ainda não se manifestaram. assim de repente, cãibras nas pernas, dores musculares, dores nas articulações, e alterações na visão. a ver se continuam à margem. outros, ainda não os consegui perceber,

alterações de humor e depressão

eu alterações de humor sempre tive lol não notei alterações. depressão é difícil dizer, porque estive a fazer medicação para a ansiedade, e a ansiedade trata-se com antidepressivos. a ver vamos.

enfraquecimento e/ou queda do cabelo

no ano passado andei uns tempos a achar que ia ficar careca, mas afinal era a queda sazonal que me ataca todos os anos, que vai desde o fim do verão até ao inicio do inverno. continua tão parvalhão como era antes, e parece-me que a velocidade de crescimento está normal. não me lembro se mais fino do que era, e não sei se tenho menos densidade capilar desde que comecei a medicação.

aumento da pilosidade corporal

disseram-me para esperar um aumento do pelâme, mas aconteceu quase oposto. notei sim que levam mais tempo a crescer, nas pernas quase que nem dou por eles, eu que sempre fui um bocado mulher das cavernas nesse aspecto.

diminuição de densidade óssea

apenas em mulheres em pré-menopausa, nas que já lá estão, parece que baixa o risco de osteoporose. quanto aos ossos, não sei, mas as unhas discordam. se já eram rijas antes, agora parece que tenho cornos na ponta dos dedos. só consigo cortá-las logo a seguir ao banho, quando ainda estão moles da água. e crescem. TÃO. RÁPIDO!

estimo que os ossos também estejam duros de roer. 

depois há aqueles estão a funcionar ao revés, 

diz que pode reduzir a libido, mas... não tem sido essa a minha experiência.. de todo lol

diz que pode aumentar o colesterol. coincidência ou não, pela primeira vez desde que faço análises ao sangue, tenho o colesterol dentro dos valores de referência, e não acima. e esta, hem? e não fiz alterações à alimentação.

sou um bocado obcecada com as coincidências entre os efeitos secundários.. tenho a sensação que uns puxam outros, e ando sempre à procura de ligações entre eles. quando o corpo está em desequilíbrio, é uma bola de neve. e com isto, vou alimentando das minhas listas de dúvidas para cravar aos médicos he he he

nos entretantos aprendi a conviver com eles, e diria até que os tolero relativamente bem. não são tão intensos como temia.. mas não vou mandar foguetes, que ainda faltam 4 anos disto...

O que funcionou para mim

Setembro 11, 2019

ter seguro de saúde com cobertura para doenças oncológicas
não tem uma cobertura astronómica, mas foi o suficiente para ter conseguido fazer tudo pelo privado. também tenho um seguro de vida especial para doenças graves da mulher, mas não foi preciso activá-lo.

a sério, se há coisa que não me vejo na vida, é não ter seguro de saúde.

ter tido acompanhamento psiquiátrico desde o início
falei nisso neste post, aniquilou-me a ansiedade por completo. notei alguma falta de memória durante este processo todo, que suspeito que possa ter sido PTSD daquela agitação toda.

ter tido imensa sorte com médicos que me calharam na rifa...
não escolhi nenhum, foram aparecendo, uns por referência de outros (ou da gestora e da enfermeira oncológica). o percurso profissional deles deixou-me tão segura, que nem valia a pena preocupar-me com segundas opiniões. 

...e com todo o pessoal médico envolvido
todas, mas todas as pessoas que de uma forma ou de outra interagiram comigo foram absolutamente fora de série. apesar de lidarem diariamente com uma doença de merda, com múltiplas formas de sofrimento e drama, nunca perdem o optimismo, a ternura, o sorriso caloroso, e o sentido de humor. ganhei-lhes um respeito tremendo, e agradeço-lhes por mim e por todos os outros. não existem elogios suficientes que honrem esta dedicação.

ter lido imenso sobre o tema 
os médicos não curtem nada que a gente se meta a ler cenas na internet, mas na minha opinião, educarmo-nos sobre a doença é meio caminho andado para lidarmos melhor com ela, e com tudo o que lhe diz respeito. claro que vamos ler coisas contraditórias, e coisas que não conseguimos fazer sentido, mas nada como tirarmos as dúvidas com os médicos que nos acompanham. 

infelizmente, na internet não existem muitas fontes em português, e o pouco que existe está muito espalhado e refundido. a nível internacional existem referências muuuuito boas, escritas em linguagem acessível, e em permanente revisão.

e também existem muuuuitas coisas incrivelmente técnicas, tipo estudos e ensaios clínicos, coisas de difícil interpretação para leigos (como eu). e claro, é sempre preciso ler os resultados com uma pitada de sal, ora porque podem ser tendenciosos, ou porque não foram feitos nas condições ideais, ora porque há interesses envolvidos. a regra dourada para se ler sobre doenças na internet é desenvolver sentido critico (e um faro à prova de charlatanice, que é o que existe mais).

ter mantido um registo dos efeitos secundários dos tratamentos
e continuo a mantê-lo. a memória pode ficar bastante afectada durante este processo todo, e quando nas consultas de seguimento, os médicos perguntam como temos passado, nem sempre nos lembramos de tudo. manter esse registo faz com que não escape nenhum detalhe, que às vezes pode ser muito importante. e quem sabe até, se a longo prazo não poderá ter alguma utilidade, nem se seja como controlo da nossa evolução durante o tratamento.

ter mantido uma atitude positiva
depois de ter recuperado do susto, levei o processo todo sempre com bastante optimismo e descontracção.

ter partilhado experiências
ter-me juntado a um fórum cheio de pessoas espectaculares, com a mesma, ou com diferentes tipos da doença, e em várias fases do tratamento, sempre disponíveis para dar uma palavra sincera a quem precisa. um caso raro de uma comunidade de entreajuda.

ter o meu homem
que foi absolutamente fenomenal a lidar com a crise. ele, que até ao momento do diagnóstico tava nas couves, com stresses físicos inexplicáveis, meteu a pausa nos problemas dele e orientou o barco durante a tempestade. acompanhou-me nas consultas mais criticas, fez as piadas mais parvas, orientou a minha família durante o meu internamento, serviu de enfermeiro, e teve uma paciência do outro mundo para todas as outras coisas.
eu, que julgava impossível alguém ser tão dedicado a outra pessoa, afinal estava enganada
 ♥

Final dos tratamentos

Setembro 04, 2019

com o fim das sessões de radioterapia, terminava o grosso do berbicacho que tinha começado em maio. 

no entanto, não tive a reacção que estava à espera. em vez de ter ficado eufórica por finalmente ter metido aquilo tudo para trás das costas, não foi bem uma sensação de alívio que senti.. foi mais de vazio.. ou nostalgia.. ou qualquer coisa pelo meio.. passei quatro meses de idas quase diárias ao hospital, numa roda viva de consultas de diferentes especialidades médicas, de exames e tratamentos marados, de estar rodeada das atenções de pessoas totalmente empenhadas em tratar-me da saúde.. e de repente, tudo aquilo tinha cessado. se não tive tempo de me adaptar à enxurrada de coisas que me entraram na vida a uma velocidade supersónica, também não tive tempo quando elas saíram quase à mesma velocidade.. e andei ali uns dias a sentir-me um bocado à deriva.

claro que ia continuar a ter consultas e exames, mas nada comparado àquela frequência frenética.

pelo fórum, fui tropeçando nalguns relatos de pessoas que descreviam a fase de pós-tratamentos em tons de vazio, abandono, preocupação, e até depressão. houve alguém que descreveu a coisa como ansiedade de separação, a mim fez-me bastante sentido. vai daí, conclui que era mais uma das muitas fases que estão associadas à experiência da doença. nada que umas férias não curassem!

nesta altura, ainda tinha as sequelas da biopsia e da cirurgia bastante pronunciadas. ao hematoma da primeira, juntou-se o hematoma gigante da segunda, e o resultado era medonho. tinha mais de metade da pele da mama tingida numa mistura foleira de cores, entre amarelos, verdes, e roxos. o cirurgião plástico tinha-me dito que o hematoma foi mais extenso devido à reconstrução com retalhos, pois houve muita mexidela lá dentro, e que ainda ia levar algum tempo até desaparecer. a sorte é que nesta altura, já nada destas merdas me dava a volta ao estômago lol

a elas, juntou-se o escaldão da radioterapia, que tal como um escaldão comum, estava a começar a escurecer a zona exposta à radiação. a pele iria demorar bastante tempo a recuperar do “bronzeado” da radiação. um ano depois, ainda cá está, juntamente com a colecção de sardas e o look david bowie. this too shall pass.

a cicatriz praticamente não se nota, ficou dissimulada junto ao contorno da aréola. serviço 5 estrelas, foi o que foi. em algumas zonas, ainda não recuperei totalmente a sensibilidade da pele. mas se não recuperar, não me é coisa que me incomode. 

restava-me sobreviver aos 5 anos de hormonoterapia.

detalhe curioso.. durante aqueles quatro meses, nenhum dos profissionais de saúde com que me cruzei neste processo todo, médicos, enfermeiros, técnicos, gestores, e até dentistas, usou a palavra "C". neoplasia.. carcinoma.. mas nunca a palavra "C". gostei disso. sempre detestei a palavra, e sempre me custou a usá-la. é feia. dá-me arrepios.. mas depois habituei-me.

Let's get grillin’ II

Agosto 19, 2019

depois de uma semana de "férias" forçadas da radioterapia, eis que sessões diárias retomaram. na fundação champalimaud.

ok.. aqui tenho que dar o braço a torcer. eu gosto muito do sítio, e das pessoas onde estava a fazer RT até então. mas.. ser tratada na fundação champalimaud, que tem instalações impecáveis, com equipamento de última geração, num ambiente futurista, quase sci-fi, e sem rabiscos no peito a manchar-me as blusas e a roupa da cama, foi muito, MUITO fixe. só tive pena que o pessoal lá não era dado à galhofa, o ambiente era mais sério e informal.

tive que repetir o planeamento, numa sala toda xpto, para ver se as coordenadas ainda mantinham, ou se precisava de fazer marcas novas. continuava tudo no sítio. siga!

o acelerador linear [AL] funcionava de uma forma um bocado diferente, e demorava uns minutos a mais, porque a máquina fazia sempre um TC para ver o posicionamento dos órgãos (que pelos vistos, de vez em quando movem-se) e afinar o feixe de radiação ao limite do possível, antes de cada sessão (é claro que eu pedi às técnicas para me explicarem tudinho). mais radiação, menos radiação, who cares, ninguém me ouviu queixar. muito, MUITO fixe.

depois, em vez de duas posições, fazia várias. no total, estava lá cerca de 10 minutos, mas só estava efectivamente a ser irradiada durante 2. ter aquela maquinorra colossal a rodar à minha volta, dia após dia, era uma coisa que não cessava de me fascinar.

praí no final da segunda semana de radiação no peito, usar soutien começou a tornar-se incómodo, por mais solto que o tivesse.. é que nem tive com meias-medidas, foi mesmo fuck dat shit, i’m going braless. ahhhhh a sensação de liberdade!!

o mês passou muito rápido. todas as tardes interrompia o trabalho por uma hora, e ia passear até algés, junto ao tejo, nas calmas. o percurso era praticamente a direito, e com pouco trânsito. o estacionamento da fundação fica bem a jeito da entrada do centro clínico, e a coisa fazia-se super bem. e o ambiente lá também é muito tranquilo, é um sítio muito agradável de se estar. quando fazia check-in davam-me um telemóvel, para me chamar quando chegasse a minha vez. lá não haviam batas descartáveis, todos os dias tinha uma bata em tecido à minha espera no vestiário, selada. cheguei a perguntar se tinha mesmo que vesti-la, pois só estava uns 30 segundos com ela em cima, se não podia simplesmente ir de t-shirt, mas não.. "é protocolo", disseram-me. pronto, não insisto mais.

"posso filmar uma sessão?" cravei, a dada altura. andava mortinha por fazer isso.

"claro que sim"

por acaso filmei duas, que a primeira ficou desenquadrada. editei o vídeo de 10 minutos para retirar todas as partes em que o AL estava parado, para ficar só a maquina a rodar à minha volta. é épico. estranhamente, só eu é que gosto de ver o vídeo : /

no final, recebi um relatório todo pipi, onde constam as quantidades de radiação que recebi em cada sessão, e o total da radiação que os órgãos vizinhos receberam, e mais uma porrada de dados que não sei interpretar.

os efeitos secundários que tive não foram nada de especial. o já esperado "escaldão" e a pele sensível, uma colecção de sardas nova na zona irradiada (também as ganho quando escaldo ao sol, nada de novo), inchaço (que se não fosse apenas numa mama, até seria bem vindo), e.. fiquei com a pele do mamilo descolorada.. mamas à david bowie, como apelidei o look novo (e que fez o técnico de RT descascar-se a rir).

aliás, as piadas saiam de chofre, sem pensar sequer. uma das melhores que fiz, quando após uma das primeiras sessões, uma técnica de RT estava a dar-me dicas sobre os cuidados que devia ter,

"...não se esqueça que não pode depilar a axila esquerda.. mas não se preocupe muito com isso, que o pêlo vai cair de forma permanente."

"a sério? quer dizer que isto é tipo depilação a laser?" respondi-lhe, com o ar mais clueless do mundo. a técnica tossiu-se toda, e eu parti-me a rir

“é um bocadinho mais agressivo que depilação a laser”, respondeu-me, a rir, depois de ter reparado que eu tava no gozo.

também perguntei se podia usar protector solar, para evitar a queimadura. mas às tantas, as piadas já não pegavam, que o pessoal já sabia que eu tava no gozo, bah!

o meu homem também saiu-se com uma genial, bué nerd, "tanta radiação, e ainda não te cresceu uma terceira mama!" ri-me tanto lol

o sativa m-tex foi uma excelente escolha. usei-o religiosamente até novembro (2 meses após a RT), e a pele aguentou-se muitissimo bem. um ano depois, ainda tenho um tom de pele ligeiramente mais escuro na zona irradiada, tenho alguma penugem de volta, mas ainda nada de pêlos foleiros,  e o vibe david bowie permanece, embora mais discreto.

mais umas semanas e já posso ir prá praia como vim ao mundo YAY!!

Let's get grillin’ I

Agosto 12, 2019

quando regressei de férias, o seguro ainda não tinha dado luz verde porque o pedido seguiu com uma informação em falta, e teve que ser re-submetido. e assim se passou mais uma semana. estava bastante satisfeita que o verão tinha tirado férias aqui do pedaço, o que tornava aquela provação mais fácil de engolir. até que o cabrão se lembrou de aparecer...

...e chegou todo de uma só vez!

ah poizé, mas tu agora não podes apanhar sol filha, por isso esquece lá a praia. NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO... que castigo tão cruel, que piada tão podre, que mal fiz eu ao universo para ficar privada da altura do ano que mais gosto, PUTA QUE PARIUUUUUU!!!

21 sessões, todos os dias da semana, à mesma hora, durante o mês de agosto praticamente todo.

entretanto, comecei com a rotina dos hidratação. é recomendado (pelos fabricantes dos cremes lol) começarmos a aplicar creme hidratante uma semana ou duas antes do inicio da radioterapia. estava indecisa entre dois, o ureadin rx rd e o sativa m-tex, ambos específicos para pele irradiada. então comprei os dois e fui usando alternadamente, até chegar à conclusão que o sativa tava 10 a 5 no ureadin, e passei a usar apenas o sativa, que tinha que encomendar na farmácia sempre que terminava uma embalagem. muito baratinho, este creme. vou acreditar que faz milagres. três vezes ao dia. de manhã, imediatamente a seguir à sessão de radioterapia, e ao deitar.

na primeira sessão, a enfermeira deu-me uma bata descartável, com indicação para trazê-la todos os dias, para evitar desperdício. concordo muito com aquela medida. por mim, nem bata usava.. mas ninguém me queria meio desnuda a atravessar o corredor entre os vestiários e o bunker, que são tipo, 5 metros. bah!

a primeira sessão foi interessante. os meus olhinhos trataram de imprimir no cérebro todos os detalhes daquela sala refundida, protegida por uma porta estupidamente grossa. para além do acelerador linear [AL], que era um bocado diferente daqueles que tinha andado a ver em fotos e vídeos, haviam monitores, e câmeras, e maquinetas que emitam lasers pregadas ao tecto. em frente ao AL, e também pregado ao tecto, estava uma bisarma que apelidei de "máquina da CC" (capsule corporation) por causa o logotipo, que projectava uns gráficos muita marados no meu tórax. pelo que percebi, é um engenho que serve para parar a radiação imediatamente, caso o paciente se mexa.

foram 3 pessoas para dentro da sala comigo. fizeram-me uns rabiscos no peito, ajustaram aquela cangalhada toda ao milímetro, confirmaram tudo e um par de botas. e depois, uma das pessoas diz-me,

"agora vamos lá fora fazer umas contas. é preciso que não se mexa" e eu não me mexi. entretanto aquela história começa a rodar à minha volta, para um lado e para o outro, a ranger por todos os lados, parecia que se ia escangalhar toda em cima de mim. praí 3 minutos depois, aquela tropa toda regressa ao bunker.

“já está despachada!”

"já??" 

oi.. tão não iam só fazer contas e assim? tão levei logo uma dose de radiação, assim, a frio, e nem dei por nada? não pode! mas sim, aparentemente aquilo é muito rápido, e ainda passou ser mais rápido, porque na primeira sessão perdem algum tempo com ajustes e a rabiscar a pele, e nas seguintes não.

uma aplicação generosa de creme assim que chegava ao vestiário e tava feito. como sou despachada, nem 10 minutos perdia lá dentro, depois de ser chamada. a parte chata era ter as sessões durante a tarde. tinha que me meter no trânsito para ir do trabalho até ao hospital, e voltar novamente.

entretanto no final da primeira semana aconteceu um contratempo, e os tratamentos no hospital foram suspensos. mas como a malta que faz RT não pode interromper o tratamento, fomos reencaminhados para outros centros.

Radioterapia

Agosto 09, 2019

antes de fazer o relato da minha experiência na tostadeira humana, deixem-me falar um bocadinho sobre esta terapia, que é utilizada há mais de 100 anos para tratar tumores. então,

o que é a radioterapia?

é um tratamento local, que utiliza radiação para danificar as células cancerígenas.

divide-se em dois tipos: radioterapia externa e braquiterapia (radioterapia interna). cerca de metade dos doentes oncológicos são submetidos a este tratamento. uns como terapia adjuvante, outros como terapia única, outros como terapia paliativa. em algumas situações, a radioterapia é o único tratamento necessário.

na radioterapia externa, é utilizada radiação ionizante (tipo raios-x on steroids) gerada por uma máquina gigante chamada acelerador linear. é administrada a uma determinada distância, com o doente imobilizado, para evitar quaisquer movimentos involuntários que afectem a precisão do feixe. na braquiterapia, é colocada uma fonte radioactiva no interior do corpo, no local do tumor.

a radioterapia externa sujeita o paciente a uma rotina um bocado aborrecida, uma vez que a dose total de radiação é dividida em fracções, para ser administrada diariamente, ao longo de algumas semanas.

a quantidade de radiação é medida em grays (Gy), e a varia consoante a extensão da doença, as características do tumor, e o estado geral do doente. existem várias técnicas para aplicá-la. as mais avançadas, que abordam o tumor com maior precisão, são: 3D-CRT1, IMRT2, V-MAT3, IGRT4, SBRT5, IORT6 e gating respiratório7. a técnica a utilizar varia de acordo com cada caso clínico, e é decidida durante o plano de tratamento.

o serviço de radioterapia costuma ficar numa zona refundida do edifício. a sala onde a está o acelerador linear é conhecida por bunker, e tem um nível de protecção insano. a equipa deste serviço é composta por médicos especialistas em radioterapia, físicos médicos, dosimetristas, técnicos de radioterapia, e pessoal de enfermagem.

como é que a radioterapia funciona?

a radiação vai provocar pequenas quebras no ADN das células. as células cancerígenas crescem e dividem-se mais rapidamente que as células saudáveis, mas não têm capacidade de se regenerar. e quando são expostas à radiação, não conseguem reparar os estragos, acabando por morrer.

as células saudáveis que também são afectadas pela radiação, fazem o que é suposto: regeneram-se, e continuam o ciclo.

[a partir deste ponto, falo especificamente sobre radioterapia externa no cancro da mama]

porque é que preciso de fazer radioterapia?

a radioterapia serve para eliminar todas células cancerígenas que possam ter ficado para trás durante a cirurgia, aumentando substancialmente a sobrevida das doentes.

todas as doentes submetidas a cirurgia conservadora devem fazer radioterapia, devido ao risco de recidiva local, que pode acontecer mesmo que o tumor tenha sido totalmente removido e com margens limpas. as pacientes submetidas a mastectomia, poderão ter que fazer este tratamento, devido à possível invasão da pele, músculo, e gânglios linfáticos.

quando é que tenho que fazer este tratamento?

geralmente, inicia-se entre 4 a 6 semanas após a cirurgia.

fazer radioterapia dói?

não, se sente absolutamente nada. vá.. quanto muito, podemos ter uma ou outra sensação de picada, nada de especial mesmo. custa mais manter-nos imóveis na posição em que estamos deitadas, do que a parte da irradiação em si.

como é administrada?

estamos deitadas em cima de uma mesa, desnudas da cintura para cima, (in)comodamente instaladas numa estrutura chamada imobilizador, que mantém as costas ligeiramente inclinadas, os braços apoiados por cima da cabeça, e os joelhos levantados. entretanto a mesa move-se até à posição definida no plano de tratamento.

de seguida, os terapeutas ajustam a nossa posição ao milímetro. existem vários lasers projectados sobre nós, e os pontinhos que temos tatuados no tórax têm que estar muito bem alinhados com eles. esta parte costuma demorar mais tempo que a irradiação em si, é preciso uma certa paciência.

terminado o posicionamento, ficamos sozinhas na sala, e momentos depois, o acelerador linear move-se ao nosso redor. consoante a técnica que está a ser utilizada, pode demorar mais ou menos tempo, mas normalmente demora entre 5 a 10 minutos. (se não estivermos a fazer radioterapia com a técnica de inspiração máxima sustentada) podemos respirar normalmente, mas não podemos fazer nenhum movimento. mas se por acaso acontecer algum movimento involuntário, worry not, que existe um processo automático que interrompe o feixe de radiação imediatamente .

esta rotina repete-se todos os dias da semana, durante cerca de seis semanas.

vou ficar radioactiva após a sessão? 

não, porque a fonte de radiação não está no nosso corpo.

mas.. se radiação é cancerígena, o tratamento não me vai provocar cancro?

a radioterapia pode aumentar ligeiramente o risco de se desenvolver outro cancro, é um dos seus efeitos secundários. é um factor que pesa na avaliação de cada caso clínico, mas se os médicos recomendam este tratamento para o nosso caso, é porque o benefício supera os riscos.

que efeitos secundários posso esperar?

à medida que o tratamento avança, podemos começar a notar algumas alterações, na pele e na mama. a maioria resolve-se nas semanas seguintes após o tratamento terminar.

cerca de duas semanas após o inicio dos tratamentos, a pele na zona irradiada pode começar a ficar avermelhada, com aspecto de queimadura solar. ao mesmo tempo fica sensível e seca, e pode dar comichão. mais para a frente, podem começar a surgir bolhas ou a pele começar a descamar. o pêlo cai e deixa de crescer. é provável que a pele escureça na zona irradiada. 

a mama pode sofrer algumas alterações físicas. os danos causados pela radiação nos vasos linfáticos pode dificultar a circulação linfática e provocar acumulação de liquido nos tecidos (linfedema), e a mama incha. pode ganhar firmeza, porque o tecido pode endurecer e perder alguma elasticidade (fibrose). e porque a radiação pode fazer com que o tecido mamário se contraia, pode ficar mais pequena.

se tivemos feito radiação nos gânglios axiliares, podemos desenvolver linfedema no braço, que pode limitar o movimento das articulações.

fadiga é um efeito secundário que costuma estar associado, mas é mais devido à penosa rotina, do que o tratamento em si.

a longo termo podem surgir problemas nos pulmões, coração, ossos, nervos, ou até cancro. importa mencionar que as técnicas utilizadas actualmente limitam bastante a exposição de radiação dos orgãos vizinhos. o resto, é uma questão de mantermos vigilância activa.

[ nota: se alguém entendido na matéria ter tropeçado nalguma informação errada, pedia o enorme favor de me corrigir. thanks in advance! ]


 

1 3D-CRT (radioterapia conformacional 3D), esta técnica molda o feixe de radiação à forma do tumor, para fornecer uma distribuição de dose com a forma do tumor, poupando os tecidos circundantes.

2 IMRT (radioterapia de intensidade modulada), é uma técnica avançada de 3D-CRT, em que o feixe de radiação é dividido em pequenos segmentos com intensidades variáveis, poupando ainda mais tecido em redor. pode necessitar de planeamento adicional no inicio de cada sessão, que pode tornar os tratamentos mais demorados.

3 VMAT, arcoterapia volumétrica modulada, é uma técnica avançada de IMRT, que para além de distribuir a dose com o formato do tumor, e utilizar múltiplos feixes com intensidades variáveis, mantém uma rotação contínua (arco) à volta do doente, diminuindo a duração do tratamento.

4 IGRT (radioterapia de imagem guiada), outra técnica avançada de 3D-CRT, que recolhe imagens antes do início de cada dose de radiação, para o técnico verificar a posição do tumor, e se necessário fazer ajustes à trajectória do feixe, para aumentar a precisão.

5 SBRT (radioterapia estereotáxica), é uma técnica utilizada no tratamento de pequenos tumores, geralmente em locais pouco acessíveis. a dose total é menos fraccionada, e o doente recebe uma dose mais concentrada de radiação em cada sessão.

6 IORT (radioterapia intra-operatória), técnica que consiste numa dose única e elevada de radiação, administrada durante a cirurgia.

7 gating respiratório, técnica em que a radiação apenas é emitida durante uma fase do ciclo respiratório do doente, quando o tumor se encontra na posição pretendida para a irradiação.

Planeamento complexo

Julho 11, 2019

depois da consulta de radioterapia, caiu-me no email a marcação de uma consulta com este nome curioso, aquele onde nos tatuam uns pontinhos no peito. não fazia a mínima ideia o que vinha dali, mas foi interessante.

trata-se do planeamento do local exacto a irradiar, e é conduzido por um técnico de radioterapia. é um procedimento bastante minucioso, que pode ser demorado. o meu durou cerca de uma hora.

no centro da sala está uma máquina de tomografia computorizada1 [TC] toda kitada. na mesa, está instalado o imobilizador, uma geringonça com um ar um bocado desconfortável (aka breast board, não faço ideia como se chama em português), que serve para nos posicionar, e manter imobilizadas durante o tratamento.

durante o planeamento temos que ficar imóveis durante montes de tempo. tanto que pode começar a ser desconfortável.

é uma cena ultra personalizada. primeiro fazemos uma TC, que gera uma imagem tridimensional do nosso tórax, onde o técnico consegue ver onde está o clip que foi colocado durante a cirurgia, no local do tumor, e os órgãos (coração, pulmões, etc), e a partir daí é feita uma simulação do feixe de radiação, para orientá-lo de modo a poupar os órgãos vizinhos o máximo possível.

quando o cancro foi na mama esquerda, devido à posição demasiado próxima coração deste lado do peito, podemos ter que fazer o teste da inspiração máxima sustentada2, para ver se beneficiamos desta técnica. o meu planeamento incluiu este teste. tive que usar uns óculos que tinham um nível, e tinha que encher os pulmões até aquele nível, e depois tinha que suster a respiração durante o máximo tempo possível. entretanto, a máquina ia tirando TCs dos vários níveis que tive que testar.

depois com a ajuda de muita tecnologia, lasers e whatnot, o técnico definiu as coordenadas, e marcou-as na pele, de forma permanente. mais um recuerdo daquela salganhada toda.

o computador também regista a posição da mesa, para ajudar os técnicos a nos posicionarem mais rapidamente nas sessões de RT. no início ou no fim do planeamento, tiram-nos uma foto, que é adicionada à nossa ficha, para o pessoal médico certificar-se que está a tratar a pessoa certa.

o técnico que me calhou era um prato, aquilo foi alta galhofa. durante a marcação dos pontos, disse-lhe que queria aquilo bem feitinho, pois era a minha primeira tatuagem. levei um ponto a menos, porque tinha um sinal no local a sarapintar.

no fim, cravei umas informações, que tava preocupada / curiosa com a proximidade do coração ao feixe de radiação, e ele mostrou-me no PC o que tinha estado a fazer, onde estava o meu coração e os pulmões, e onde o feixe ia trespassar. fiquei aliviada por constatar que o coração estava ali rés-vés, iria apanhar alguma radiação, mas seria mínima.

longe nos nossos narizes, os físicos médicos e dosimetristas3, escolhem a técnica que melhor se adapta ao nosso caso, definem a quantidade radiação que vamos receber, o número de sessões, e dose por sessão.

agora faltava o seguro aprovar aquela estalada. mas entretanto, fuck dat shit, vou de férias!


 

1 tomografia computorizada, anteriormente conhecida por tomografia axial computorizada (TAC), cuja designação caiu em desuso quando a tecnologia e funcionamento das máquina de tomografia mudou

inspiração máxima sustentada é uma técnica que consiste em encher os pulmões de ar, e mantê-lo durante pelo menos 20 segundos. pode ser utilizada quando a radiação é administrada na mama esquerda. o objectivo é aumentar o espaço entre o coração e o feixe de radiação, para baixar o risco de lesão cardíaca.

3 dosimetrista é um técnico que trabalha em colaboração com os físicos e os radioterapeutas. tem conhecimento das características das máquinas, equipamentos, e técnicas de radioterapia. as suas funções incluem realizar planeamentos, determinar a técnica de administração da radiação, assim como auxiliar o médico e físico de radioterapia no calculo e distribuição das doses. 

 

Consulta de Radioterapia

Julho 03, 2019

não tinha menos dúvidas com a radioterapia [RT], do que com a hormonoterapia, pois também li e vi umas coisinhas menos agradáveis sobre este tratamento. a consulta decorreu nas calmas e durou montes de tempo.

mais uma vez massacrei a médica com perguntas e dúvidas, salpicadas com doses generosas de piadas. não tenho problemas nenhuns que as pessoas fiquem a pensar que tenho um parafuso desapertado. 

a médica explicou-me para que serve este tratamento, porque é que preciso dele, como é administrado, e como é feito o acompanhamento. explicou-me os possíveis efeitos secundários, e como é que a pele costuma reagir à radiação,

  • esperar uma queimadura tipo escaldão, e possível irritação da pele (radiodermatite)
  • descoloração da pele
  • o pêlo na zona irradiada cair
  • poderia sentir algum cansaço com o avançar das sessões

mas para mim, a parte que mais me interessava daquela conversa toda era… os CREMES!!

quero a minha pele bem tratadinha durante esta história toda. o que é que posso usar, o que é que não posso usar. tinha andado a ler TUDO sobre cremes, já tinha a minha lista, e queria afiná-la. acontece que a médica era liberal quanto à minha escolha de creme hidratante, apenas fez algumas advertências:

  • só não podia usar um creme com metais pesados na sua composição (tipo o halibut, que tem óxido de zinco), de resto podia usar qualquer um
  • que não besuntasse creme nas três horas antes da sessão de RT
  • nada de depilar a axila, nem usar desodorizantes e anti-transpirantes (por causa dos metais)

caso a pele começasse a empolar e a ficar com mau aspecto, seria necessário uma pomada especifica, com cortisona. mas até lá, não nos vamos preocupar com isso.

quando o assunto é radioterapia, a pele acaba por ser a principal preocupação, porque a queimadura é o efeito mais visível, mas também porque causa um *certo* desconforto, e pode até ser doloroso. é preciso ter alguns cuidados,

  • evitar roupa justa, para não causar fricção na pele, usar antes blusas largas
  • tomar banho com água morna
  • no banho, utilizar um gel suave, sem sabão, e nada de coisas abrasivas, tipo esponjas e poufs
  • deixar a pele secar ao ar, ou apenas passar a toalha levemente
  • é completamente proibido coçar
  • evitar dormir sobre o lado irradiado

perguntei se podia ter um pote de gel de aloé vera no frigorífico, para aliviar-me, caso sentisse a pele a arder, e ficar maluca com a comichão. podia.

porque a minha segunda grande preocupação era saber se podia ir à praia, fiz várias perguntas neste departamento. as recomendações foram,

  • nada de apanhar sol na área irradiada, e usar um chapéu de aba larga ou um lenço no pescoço quando saísse à rua. sol, só depois de ter passado um ano, até lá, evitar.. iria ter que pensar em soluções para as férias
  • meter protector solar, mesmo que vestisse uma t-shirt
  • se tomasse banho no mar (devidamente protegida), evitar molhar a zona do peito, por dois motivos, primeiro porque o salitre podia ser irritante para a pele, segundo, não podia apagar os rabiscos para guiar os técnicos durante a RT.

perguntei ainda se me deveria preocupar com pneumonite por radiação, ao que ela respondeu que as técnicas utilizadas actualmente limitam bastante a exposição dos pulmões à radiação, mas que uns meses depois do tratamento, iríamos inspeccionar os pulmões.

verão.. sem depilar o sovaco, nem poder usar anti-transpirante.. tasse! o copo meio cheio, é que a radioterapia ia fazer o pêlame cair (zomg, fiz uma piada GENIAL com isto, deixei uma técnica de RT de incrédula a olhar para mim, até que se apercebeu que eu tava brincar).

Tamoxifeno

Julho 01, 2019

senhoras (e senhores também), se vos calhou na lotaria um cancro da mama com receptores hormonais1 positivos (ER+ e PR+), quando chegarem ao oncologista, é quase 100% garantido que o tamoxifeno vai estar em cima da mesa. existem outros, mas este é o medicamento de eleição para a hormonoterapia.

o tamoxifeno é uma droga estudada há mais de 40 anos como tratamento adjuvante do cancro da mama (e não só), e a mais utilizada nos últimos 30 anos no tratamento e prevenção da doença. a boa notícia é que tem provas dadas na redução de recidivas, e no aumento da sobrevida das pacientes. a má notícia é que provoca uns efeitos secundários um bocado merdosos...

tem uma história algo curiosa. começou por ser investigada como contraceptivo de emergência. só que durante os ensaios clínicos, descobriram que em vez de suprimir a ovulação, estimulava-a! o efeito exactamente oposto ao pretendido... podia ter morrido na praia, se em paralelo, não estivesse também a ser avaliada como terapia para cancro hormonodependente2. e foi assim, que de pílula do dia seguinte falhada, passou a tratamento de fertilidade e tratamento paliativo no cancro da mama, até se tornar na terapia hormonal padrão no cancro da mama. existe um artigo que conta a sua história em grande detalhe, e que também ajuda a perceber que a investigação farmacêutica não é uma coisa assim tão básica quanto a malta julga.

mas ao que interessa. o tamoxifeno é um modulador selectivo do receptor de estrogénio [MSRE], que é como quem diz, "imita" a acção do estrógenio no corpo. 

o estrogénio é uma hormona que está envolvida num vasto número de processos (em especial nas mulheres), e é essencial para o desenvolvimento e manutenção de vários tipos de tecidos. tecidos esses, que têm níveis diferentes de sensibilidade ao estrógenio, e de acordo com essa sensibilidade, o MSRE vai inibir ou estimular uma acção semelhante à do estrogénio.

as células cancerígenas que necessitam dessa hormona para se desenvolver, quando se agarram a este estrogénio farsola, estão tramadas. é assim que o tamoxifeno ajuda a reduzir o risco do cancro voltar, matando as desgraçadas à fome. dependendo do nosso caso, temos que tomá-lo diariamente, durante 5 ou 10 anos.

mas porque é uma terapia sistémica3, não afecta somente as células cancerígenas - mas todas as células do corpo cujos processos dependem do estrogénio, actuando numas como anti-estrogénio, e noutras como estrogénio, e a sua falta ou excesso, provoca uma torrente de efeitos indesejáveis... basicamente (se não estivermos lá) atira-nos para uma espécie de menopausa. e está listado no grupo 1 dos agentes cancerígenos para humanos, porque pode provocar... guess what? cancro!

anywhoo, 

eu, que tinha ataques de pânico quando me punha a pensar na menopausa, saber que viria uns 10 anos mais cedo do que estava a contar com ela, foi assim um pontapé na tromba. eriçava-me toda quando ouvia um médico a pronunciar aquela palavra na minha direcção, nem conseguia pensar naquilo. mas pronto, atirei a toalha ao chão e fui fazer aquilo que sei fazer melhor - ir à internet educar-me. quis aprender tudo o que há para saber sobre este medicamento, para tomar uma decisão consentida. é lógico que comecei pelos efeitos secundários!

então, para além daqueles mais frequentes,

  • afrontamentos
  • suores nocturnos
  • alterações na menstruação
  • secura ou corrimento vaginal
  • dores de cabeça
  • náuseas e vómitos
  • retenção de líquidos
  • erupção cutânea
  • fadiga
  • enfraquecimento e/ou queda do cabelo


também há quem se queixe de,

  • insónias
  • tonturas
  • perturbações da visão
  • dores musculares
  • dores nas articulações
  • obstipação
  • alterações de humor
  • depressão


e muito raramente é responsável por,

  • fibromas uterinos
  • cancro no endométrio
  • trombose venosa profunda
  • embolismo pulmonar
  • alterações hepáticas


HA HA HA HA tão bom... NOT!!

(quando se opta por tomar, para além das análises ao sangue, há um exame que entra na rotina anual, a ecografia pélvica. eu já a fazia todos os anos, por isso não é novidade, é só menos um exame que tenho que pedinchar)

há quem tome, e não note grandes efeitos secundários. há quem tome, e aguente os efeitos secundários à bronca. há quem desiste de tomar, porque não suporta os efeitos secundários. há quem não tome, e opte por vigilância activa. mais uma vez, o importante é que estejamos perfeitamente informadas e esclarecidas sobre este medicamento, e medir bem o rácio do beneficio/riscos. li muitas experiências, sobretudo más, mas não me deixei intimidar pela má fama generalizada que o tamoxifeno tem. 

tenho alguns efeitos secundários daquela lista. uns são.. interessantes, outros, nem por isso. mas é tema para outro post :D

importa registar que completo hoje o primeiro ano, YAY!
four more to go, YAAAY!

mais informação sobre o tamoxifeno, em português / inglês


 

1 receptores hormonais são um tipo de proteínas que existem nas células, que podem ligar-se a certas substâncias no sangue. é com base na presença ou ausência desses receptores, que o cancro da mama recebe a designação de "receptor de estrogéneo (ER) / progesterona" (PR) positivo (+) ou negativo (-). conhecer o status dos receptores hormonais é importante para decidir as opções de tratamento. 

2 cancro hormonodependente é um sub-tipo de cancro com receptores de estrogéneo e progesterona positivos, e cujas células dependem dessas hormonas para crescer e multiplicar-se.

3 terapia sistémica é um tipo de tratamento cujas substâncias utilizadas viajam pela corrente sanguínea, chegando e afectando células pelo corpo todo.

 A consulta de oncologia

Junho 28, 2019

só o nome arrepia, mas a verdade é que nesta altura, já nada faz mossa. é só mais uma.

estive uma hora e meia à espera da minha consulta. momentos antes de ser chamada, saiu alguém do gabinete da médica, que deve ter recebido uma notícia muito má... uma pessoa fica sem palavras perante aquele desespero. uma lição valiosa que aprendi nestes dias:

nunca, nunca, nunca rezingar porque a consulta está atrasada, alguém numa situação MUITO mais grave que a nossa pode estar necessitado da atenção do médico, e naquele momento o médico é o nosso farol.

hormonoterapia era o motivo da minha consulta. como tinha sugado quantidades massivas de informação sobre esta história, estava carregada de dúvidas. tinha comigo uma listinha de perguntas, não me fosse esquecer de alguma.

devo ter causado uma rica impressão lol. tipo, olhem-me só esta gaja, chata c’ma potassa a fazer perguntas pelos cotovelos muhahah anyway, a médica parecia ter muito boa disposição, e não parecia muito chocada com as minhas piadolas. menos mal. quis certificar-me das coisas duas, três, quatro vezes, e ela, com uma paciência do tamanho do universo, ia respondendo à saraivada de perguntas de uma forma bastante assertiva e clara, nada de rodeios. amei a frontalidade e o trato fácil da médica.

a verdade é que estamos a falar de tomar um comprimido todos os dias, durante cinco anos, e que tem uma série de efeitos secundários pouco agradáveis. não é uma coisa que se encare de ânimo leve...

mas no final decidi que sim, que ia dar uma oportunidade à hormonoterapia (terapia hormonal, whatevs). na verdade, não consegui arranjar argumentos racionais que me levassem a recusar. sou nova, e ter tido CDIS aumenta-me as probabilidades de voltar a ter CDIS ou CDI na mesma mama ou na outra, não queria que esta história me voltasse a chatear tão cedo. não basta já a radioterapia a abrir-me a porta para possíveis encrencas a longo prazo... 

mas ficou logo ali escrito na pedra, que caso os efeitos secundários se tornassem insuportáveis, teríamos que rever a estratégia. tudo bem. e sai de lá com prescrição para um ano inteiro, PQP!

no dia seguinte ao deitar, tomei o primeiro dos 1826 comprimidos, a pedir aos deuses para que a droga fosse branda comigo. e já agora, que honrasse o esforço que ia a fazer.

btw, se o nosso médico oncologista é da opinião que devemos fazer a terapia hormonal, não é por dá cá aquela palha. estamos a falar de um profissional de saúde altamente especializado, que sabe imensamente mais do que nós, e do que qualquer merda que possamos ler na net. não só estudou milhares de horas, como certamente já viu milhares de casos, e não! não está a encher bolsos a farmacêutica nenhuma (até porque a patente já expirou, e pelo menos cá, só há genéricos), é mesmo para o nosso próprio bem. esta pessoa analisou o nosso caso, falou com os nossos médicos, avaliou os benefícios versus riscos.. não é o mesmo que passar ben-u-ron para tratar de uma gripe.

claro que a escolha final é sempre nossa, e ninguém nos obriga a tomar nada. mas que esta seja uma escolha muito bem informada, e que estejamos perfeitamente conscientes dos benefícios e dos riscos que existem entre tomar e não tomar.

'Le me

tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mIRC.

no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e (sempre que a preguiça não a impede) gosta praticar exercício físico.

mantém uma pequena bucket list de coisas que gostava de fazer nos entretantos.

'Le liwl

era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 16 de janeiro, no longínquo ano de 2003, numa altura em que os blogs eram apenas registos pessoais, sem pretensões de coisa alguma. e assim se tem mantido.

muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora. para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores:
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