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lost in wonderland

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Radioterapia

Agosto 09, 2019

antes de fazer o relato da minha experiência na tostadeira humana, deixem-me falar um bocadinho sobre esta terapia, que é utilizada há mais de 100 anos para tratar tumores. então,

o que é a radioterapia?

é um tratamento local, que utiliza radiação para danificar as células cancerígenas.

divide-se em dois tipos: radioterapia externa e braquiterapia (radioterapia interna). cerca de metade dos doentes oncológicos são submetidos a este tratamento. uns como terapia adjuvante, outros como terapia única, outros como terapia paliativa. em algumas situações, a radioterapia é o único tratamento necessário.

na radioterapia externa, é utilizada radiação ionizante (tipo raios-x on steroids) gerada por uma máquina gigante chamada acelerador linear. é administrada a uma determinada distância, com o doente imobilizado, para evitar quaisquer movimentos involuntários que afectem a precisão do feixe. na braquiterapia, é colocada uma fonte radioactiva no interior do corpo, no local do tumor.

a radioterapia externa sujeita o paciente a uma rotina um bocado aborrecida, uma vez que a dose total de radiação é dividida em fracções, para ser administrada diariamente, ao longo de algumas semanas.

a quantidade de radiação é medida em grays (Gy), e a varia consoante a extensão da doença, as características do tumor, e o estado geral do doente. existem várias técnicas para aplicá-la. as mais avançadas, que abordam o tumor com maior precisão, são: 3D-CRT1, IMRT2, V-MAT3, IGRT4, SBRT5, IORT6 e gating respiratório7. a técnica a utilizar varia de acordo com cada caso clínico, e é decidida durante o plano de tratamento.

o serviço de radioterapia costuma ficar numa zona refundida do edifício. a sala onde a está o acelerador linear é conhecida por bunker, e tem um nível de protecção insano. a equipa deste serviço é composta por médicos especialistas em radioterapia, físicos médicos, dosimetristas, técnicos de radioterapia, e pessoal de enfermagem.

como é que a radioterapia funciona?

a radiação vai provocar pequenas quebras no ADN das células. as células cancerígenas crescem e dividem-se mais rapidamente que as células saudáveis, mas não têm capacidade de se regenerar. e quando são expostas à radiação, não conseguem reparar os estragos, acabando por morrer.

as células saudáveis que também são afectadas pela radiação, fazem o que é suposto: regeneram-se, e continuam o ciclo.

[a partir deste ponto, falo especificamente sobre radioterapia externa no cancro da mama]

porque é que preciso de fazer radioterapia?

a radioterapia serve para eliminar todas células cancerígenas que possam ter ficado para trás durante a cirurgia, aumentando substancialmente a sobrevida das doentes.

todas as doentes submetidas a cirurgia conservadora devem fazer radioterapia, devido ao risco de recidiva local, que pode acontecer mesmo que o tumor tenha sido totalmente removido e com margens limpas. as pacientes submetidas a mastectomia, poderão ter que fazer este tratamento, devido à possível invasão da pele, músculo, e gânglios linfáticos.

quando é que tenho que fazer este tratamento?

geralmente, inicia-se entre 4 a 6 semanas após a cirurgia.

fazer radioterapia dói?

não, se sente absolutamente nada. vá.. quanto muito, podemos ter uma ou outra sensação de picada, nada de especial mesmo. custa mais manter-nos imóveis na posição em que estamos deitadas, do que a parte da irradiação em si.

como é administrada?

estamos deitadas em cima de uma mesa, desnudas da cintura para cima, (in)comodamente instaladas numa estrutura chamada imobilizador, que mantém as costas ligeiramente inclinadas, os braços apoiados por cima da cabeça, e os joelhos levantados. entretanto a mesa move-se até à posição definida no plano de tratamento.

de seguida, os terapeutas ajustam a nossa posição ao milímetro. existem vários lasers projectados sobre nós, e os pontinhos que temos tatuados no tórax têm que estar muito bem alinhados com eles. esta parte costuma demorar mais tempo que a irradiação em si, é preciso uma certa paciência.

terminado o posicionamento, ficamos sozinhas na sala, e momentos depois, o acelerador linear move-se ao nosso redor. consoante a técnica que está a ser utilizada, pode demorar mais ou menos tempo, mas normalmente demora entre 5 a 10 minutos. (se não estivermos a fazer radioterapia com a técnica de inspiração máxima sustentada) podemos respirar normalmente, mas não podemos fazer nenhum movimento. mas se por acaso acontecer algum movimento involuntário, worry not, que existe um processo automático que interrompe o feixe de radiação imediatamente .

esta rotina repete-se todos os dias da semana, durante cerca de seis semanas.

vou ficar radioactiva após a sessão? 

não, porque a fonte de radiação não está no nosso corpo.

mas.. se radiação é cancerígena, o tratamento não me vai provocar cancro?

a radioterapia pode aumentar ligeiramente o risco de se desenvolver outro cancro, é um dos seus efeitos secundários. é um factor que pesa na avaliação de cada caso clínico, mas se os médicos recomendam este tratamento para o nosso caso, é porque o benefício supera os riscos.

que efeitos secundários posso esperar?

à medida que o tratamento avança, podemos começar a notar algumas alterações, na pele e na mama. a maioria resolve-se nas semanas seguintes após o tratamento terminar.

cerca de duas semanas após o inicio dos tratamentos, a pele na zona irradiada pode começar a ficar avermelhada, com aspecto de queimadura solar. ao mesmo tempo fica sensível e seca, e pode dar comichão. mais para a frente, podem começar a surgir bolhas ou a pele começar a descamar. o pêlo cai e deixa de crescer. é provável que a pele escureça na zona irradiada. 

a mama pode sofrer algumas alterações físicas. os danos causados pela radiação nos vasos linfáticos pode dificultar a circulação linfática e provocar acumulação de liquido nos tecidos (linfedema), e a mama incha. pode ganhar firmeza, porque o tecido pode endurecer e perder alguma elasticidade (fibrose). e porque a radiação pode fazer com que o tecido mamário se contraia, pode ficar mais pequena.

se tivemos feito radiação nos gânglios axiliares, podemos desenvolver linfedema no braço, que pode limitar o movimento das articulações.

fadiga é um efeito secundário que costuma estar associado, mas é mais devido à penosa rotina, do que o tratamento em si.

a longo termo podem surgir problemas nos pulmões, coração, ossos, nervos, ou até cancro. importa mencionar que as técnicas utilizadas actualmente limitam bastante a exposição de radiação dos orgãos vizinhos. o resto, é uma questão de mantermos vigilância activa.

[ nota: se alguém entendido na matéria ter tropeçado nalguma informação errada, pedia o enorme favor de me corrigir. thanks in advance! ]


 

1 3D-CRT (radioterapia conformacional 3D), esta técnica molda o feixe de radiação à forma do tumor, para fornecer uma distribuição de dose com a forma do tumor, poupando os tecidos circundantes.

2 IMRT (radioterapia de intensidade modulada), é uma técnica avançada de 3D-CRT, em que o feixe de radiação é dividido em pequenos segmentos com intensidades variáveis, poupando ainda mais tecido em redor. pode necessitar de planeamento adicional no inicio de cada sessão, que pode tornar os tratamentos mais demorados.

3 VMAT, arcoterapia volumétrica modulada, é uma técnica avançada de IMRT, que para além de distribuir a dose com o formato do tumor, e utilizar múltiplos feixes com intensidades variáveis, mantém uma rotação contínua (arco) à volta do doente, diminuindo a duração do tratamento.

4 IGRT (radioterapia de imagem guiada), outra técnica avançada de 3D-CRT, que recolhe imagens antes do início de cada dose de radiação, para o técnico verificar a posição do tumor, e se necessário fazer ajustes à trajectória do feixe, para aumentar a precisão.

5 SBRT (radioterapia estereotáxica), é uma técnica utilizada no tratamento de pequenos tumores, geralmente em locais pouco acessíveis. a dose total é menos fraccionada, e o doente recebe uma dose mais concentrada de radiação em cada sessão.

6 IORT (radioterapia intra-operatória), técnica que consiste numa dose única e elevada de radiação, administrada durante a cirurgia.

7 gating respiratório, técnica em que a radiação apenas é emitida durante uma fase do ciclo respiratório do doente, quando o tumor se encontra na posição pretendida para a irradiação.

Gatinhos atinam

Agosto 07, 2019

aos poucos as coisas começaram a ficar mais pacatas cá por casa. sôdona gatifonga deu as últimas bufadelas na segunda, uma semana depois da pirralha ter chegado, e já lhe prega sustos e quer jogar à apanhada. no fundo, tá a começar a perceber porque é que lhe quisemos arranjar companhia.

só que a pirralha, quando topa aquele torpedo felpudo desgovernado a correr na sua direcção, assusta-se e encolhe-se toda, ou esconde-se. mas já se cheiram, já não há patas no ar, e cruzam-se pela casa sem stresses. tão sempre de olho uma na outra, mas ainda mantêm uma distância confortável. e até já partilham a mesma cagadeira, por iniciativa da gatifonga, que decidiu que a cagadeira da outra era mais fixe que a dela. 

a pirralha, que ficava fechada no quarto quando estávamos fora de casa, não fosse a outra vazar-lhe uma vista, começou a recusar ficar no quarto desde o fim-de-semana passado. tão olha.. seja!

tivemos que isolar a fiarada toda com fita de protecção em espiral, que gatinho que é gatinho, gosta de roer tudo quanto é fio. há uns tempos tivemos uma trabalheira danada a passar cabo das colunas de som, não queríamos cá estragos.

tivemos também que mudar o comedouro da gatifonga para um sítio alto, que a pirralha é gulosa nas horas, e ainda dá cabo dos dentinhos a roer a ração da outra. por outro lado, como a gatifonga detesta paté, não toca na comida da outra.

ainda não há fotos que eu ando bué preguiçosa para isso lol (e já sei que me vou arrepender, que ela está a crescer super depressa.. aquela babycat parece que tem fermento 😑)

The Great Hack

Agosto 06, 2019

há uns dias meti uma pausa nas séries, e dediquei-me a ver este documentário (que tem o tamanho de um filme) que estreou recentemente no netflix, sobre o escândalo que envolveu a cambridge analytica e o facebook.

já conhecia alguns detalhes desta história. quando em 2017, no web summit, assisti a duas talks que mencionavam o sucesso dos meios digitais na campanha presidencial do trump, que me deixaram arrepiada. uma do director de media digital da campanha, brad parscale, e outra do ceo da agora extinta cambridge analytica, alexander nix. entretanto, nunca parou de sair noticias sobre o tema, e o facebook tem andado debaixo de fogo desde então.

este documentário vai ao cerne da questão, e tem cenas que dão a volta ao estômago, de tão repugnante que é a falta de escrúpulos que algumas pessoas são capazes, para atingir objectivos e/ou ganhar dinheiro.

admitindo que o documentário possa estar algo enviesado, por mostrar apenas um dos lados da questão - aquele que está preocupado com a manipulação das pessoas através das redes sociais, e a privacidade dos dados dos utilizadores que as plataformas recolhem, e fazem o que bem entendem com eles, diria que vale muito a pena vê-lo. e tirar as nossas próprias conclusões.

é imperativo que estejamos *pelo menos* conscientes de como funciona o mundo digital, e da rebaldaria que vai nas plataformas onde passamos grande parte do nosso tempo, que exploram, manipulam, e lucram, com o rasto de dados que vamos deixando atrás de nós, completamente a cagar de alto como é utilizado por terceiros. é grave, muito grave!

 

'Le me

tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mIRC.

no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e (sempre que a preguiça não a impede) gosta praticar exercício físico.

mantém uma pequena bucket list de coisas que gostava de fazer nos entretantos.

'Le liwl

era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 16 de janeiro, no longínquo ano de 2003, numa altura em que os blogs eram apenas registos pessoais, sem pretensões de coisa alguma. e assim se tem mantido.

muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora. para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores:
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